quinta-feira, 18 de junho de 2015

Aprendi muitas coisas na faculdade de medicina, mas a mortalidade não foi uma delas






Por Josie Conti
 “Aprendi muitas coisas na faculdade de medicina, mas a mortalidade não foi uma delas.”
É com a frase acima que o médico cirurgião e jornalista americano Atul Gawande introduz o seu novo livro “Mortais- Nós, a medicina e o que realmente importa no final ”, da Editora Objetiva, lançado em junho de 2015 no Brasil. Escrito em tom pessoal e repleto de histórias de família e trabalho, o livro nos permite vivenciar a dor, as perdas e as consequências das escolhas finais dos profissionais, do paciente e dos familiares frente à iminência da morte.
Como escritor, Atul Gawande sabe que só o que é emocionalmente significativo fica gravado e ressoa na memória do leitor. Com muita delicadeza, coloca-nos em vivência compartilhada nos dramas que relata e questiona-nos: frente a uma doença incurável, devemos usar ilimitadamente os recursos da medicina existentes para prolongar o tempo em que um corpo permanece respirando, mesmo que ligado a aparelhos, ou deveríamos nos focar na qualidade de vida restante?
É fato que os médicos são formados para salvar vidas. Para eles, a competência, a segurança e a identidade do profissional, na maioria das vezes, está relacionada a não deixar que o paciente morra. Mas, será que o prolongamento da vida com o uso de aparelhos, alguns tipos de quimioterapia ou mesmo cirurgias agressivas não seriam “novas formas de torturas físicas a que submetemos nosso paciente?”, diz ele em um trecho do livro.
Como profissional da saúde, sempre me surpreendi com o abismo existente entre a teoria e realidade profissional. Nessa área creio que são raros os casos de pessoas que realmente têm noção do que encontrarão do lado de dentro de um consultório ou de um hospital. Os maiores exemplos de tratamento desumanizado que presenciei como pessoa vi lidando com médicos que atuavam sob uma falsa couraça de poder. Seria a arrogância e a prepotência, tantas vezes encontrada na classe, um mecanismo de defesa para lidar com as próprias inseguranças frente a limitações reais da prática profissional?
Mesmo filho de médicos, o próprio Atul Gawande confessa que não imaginava como era viverciar rotineiramente a limitação, a falta de recursos terapêuticos e, principalmente, a morte real, consumada. Como lidar com a situação quando nada mais pode ser feito?
Um dos grandes diferenciais do autor é a sinceridade e a dignidade com que desbanca a onipotência da profissão ao analisar os aspectos emocionais dos envolvidos, ao falar da NEGAÇÃO cultural que o mundo moderno desenvolveu enquanto a medicina, o saneamento básico e outros fatos históricos permitiram o aumento da expectativa de vida das pessoas.
Sua mensagem é pela revisão dos gastos médicos realizados em tratamentos desnecessários, é pelo olhar para um paciente que precisa ser informado sobre sua real condição e, mais do que tudo, sobre a priorização da qualidade e não do tempo de vida de uma pessoa.


Josie Conti

Psicóloga por formação, blogueira por opção. Abandonou o serviço público para manter seus valores pessoais . Hoje trabalha prioritariamente na internet com criação e seleção de conteúdo. É idealizadora e redatora-chefe desse site e da CONTI outra no Facebook. Trabalha com o que ama. “Sonha durante o dia. A noite dorme tranquila.

A FÁBULA DO QUE ERA SUFICIENTE


O dom da história – Clarissa Pinkola Estés, Editora Rocco
NESTA NOITE NÃO TEMOS NADA – começou o velho. – Mas em outras partes do mundo há sem dúvida pessoas que podem ter muito mais do que precisam. O que é suficiente? Vamos examinar essa pergunta.
Era uma vez, há muito tempo, na época em que nossos abençoados avós ainda viviam, uma moça pobre, porém linda, que era casada com um rapaz igualmente pobre e bonito. Estava chegando a época natalina, quando é costume a troca de presentes. Os jovens enfrentavam grande falta de dinheiro, pois uma guerra que grassava há muitos anos acabava de esmorecer.
Todos os carneiros haviam sido abatidos pelos soldados para que a carne lhes fosse tirada. Portanto, não havia lã nenhuma com a qual fazer fio. Sem fio, não havia como tecer; sem tear, não havia tecido; e, portanto, nenhum traje de inverno para substituir as roupas andrajosas. Quando podiam, as pessoas retalhavam dois pares de sapatos para fazer um único par de dar pena. Todo mundo usava todos os suéteres e coletes esfarrapados que tinha, de tal modo que as pessoas davam a impressão enganosa de estarem barrigudas, apesar de macilentas tanto acima quanto abaixo da cintura.
E então, como costuma acontecer quando a pior parte da guerra passou, as pessoas começaram a se esgueirar de volta ao que restava das suas casas. Como o cachorro que conhece seu próprio território, as pessoas voltavam para ficar, apesar das condições de penúria. Algumas das lavradoras começaram a consertar arados, substituindo a lâmina por cápsulas de obuses que aqueciam e moldavam à mão. Outras cortavam e sacudiam as plantas mortas à procura de sementes. O alfaiate implorava por alguns retalhos de pano para começar a costurar de novo e vendia nas ruas seus coletes e casacos feitos de retalhos. O padeiro moía à mão qualquer grão que pudesse cultivar em vasos quebrados na janela e, depois, moldava habilmente pãezinhos minúsculos, que vendia na porta da frente da sua casa. E, aos poucos, pessoas com a mente voltada para o comércio começaram a conseguir um pequeno sustento com a venda de pequenas ninharias, enquanto agradeciam pelo fato de que, por maiores que fossem os males da guerra, ela não havia conseguido apagar o sol. E assim seguia a vida na aldeia. Embora sem abundância, por toda parte ressurgiam os sinais mais simples da vida nova. E as pessoas tomavam enorme cuidado para proteger tudo que fosse frágil ou jovem.
Era assim que viviam a linda moça e o belo rapaz. Embora tivessem perdido muito com a guerra, eles ainda possuíam dois bens de valor. O rapaz havia conseguido não se desfazer do relógio de bolso do seu avô e sentia orgulho em informar as horas a quem lhe perguntasse. E a moça, apesar de mal nutrida há meses, ainda tinha uma longa e bela cabeleira que, quando ela soltava, tocava o chão em toda sua volta, cobrindo-a como um manto da pele mais valiosa. E assim, ricos dessa forma simples, o jovem casal levava a vida, tentando ganhar alguns centavos com a venda eventual de um pequeno nabo ou de uma maçã de inverno.
Velas de trapos e óleo estavam acesas nas vitrines da cidade inteira para o Natal. A noite chegava mais cedo, ficava mais tempo e a neve caía veloz. A moça queria tanto dar ao marido um presente de Natal, um presente grande, brilhante, lindo. Quando procurou nos bolsos, porém, ela só encontrou alguns poucos centavos. E, enquanto encarava a difícil situação em que estava sem o menor sinal de autocomiseração, ela não conseguiu deixar de chorar em silêncio.
Percebeu que as lágrimas não a ajudariam se ainda quisesse encontrar um presente para o marido, por isso secou o rosto e arquitetou um plano. Vestiu seu casaco surrado e calçou dois pares de luvas, cada um com dedos diferentes faltando. Saiu correndo pela porta e pela rua lamacenta, passou por todas as lojinhas com pouquíssima mercadoria  nas vitrines. Nada mais importava, porque ela agora tinha em mente um presente, um presente especial para o marido que trabalhava tanto tempo afinco para tão pouco conseguir trazer para casa.
Passou por pilhas de entulho, por escadas sem casas e desceu por um beco estreito até entrar num prédio sombrio. Subiu três lances da escada, correndo, a essa altura já sem fôlego e praticamente sem força suficiente para bater à porta.
Madame Sophie atendeu, usando um vison desprezível, comido de traças, em volta do pescoço. Seu cabelo era laranja e arrepiado em toda a volta da cabeça. Suas sobrancelhas eram como escovar cheias de fuligem. Ela era sem dúvida a velha mais estranha que já pisou na superfície da Terra. Ela, que antes da guerra fazia finas perucas para mulheres e homens ricos, estava, agora, reduzida a viver num apartamento de um cômodo sem calefação.
Os olhos de Madame Sophie cintilaram.
– Ah, você veio vender seu cabelo? – disse ela, arrulhando.
Ela e a moça barganharam muito até que afinal chegaram a um acordo. A moça se sentou na cadeira de madeira. Madame Sophie ergueu uma de suas pesadas tranças para ilumina-la. Ela brilhou como fio de seda. Com tesouras que pareciam ser do tamanho de enormes mandíbulas negras de ferro, Madame Sophie cortou os esplêndidos cachos da moça em três grandes tesouradas. As lindas madeixas caíram no chão e as lágrimas cintilantes da moça as acompanharam. Madame Sophie, como se fosse um roedor voraz, juntou o cabelo cortado.
– Tome seu dinheiro – rosnou a velha. Ela pôs umas moedas na mão da moça, empurrou-a para o corredor e bateu a porta.
E ponto final.
Apesar de passar por uma tortura dessas, a moça era guiada por sua visão interior, e seus olhos voltaram a se iluminar de entusiasmo. Correu pela rua até um homem que vendia correntes prateadas para relógios feitas de chumbo estanhado, mas que, sem dúvida, tinham uma aparência mais elegante do que a de um simples barbante comum. Ela lhe deu os centavos que tinha antes e os que ganhou com a venda do seu lindo cabelo. E, com mãos imundas, ele lhe entregou uma corrente para relógio. Ah, como de repente ela se encheu de alegria por ter um presente para dar ao seu amado. Pois praticamente correu para casa, com os pés mal tocando o chão, como o anjo que ela, em outro lugar e em outra época, poderia decerto ter sido.
Enquanto isso, o marido estava ocupado com seu próprio esforço para encontrar um presente para sua querida mulher. Ah, o que poderia ser? Qual seria o presente certo? Um comerciante lhe empurrou uma batata murcha. Não, não, isso não serviria. Outro exibiu um echarpe que, embora estivesse surrada, tinha cor bonita. Mas não, ela esconderia seus cabelos maravilhosos, e ele adorava tanto ver sua cabeleira com seus reflexos de rubi e ouro.
Na esquina seguinte, onde ventava muito, mais um mascate exibia nas palmas das mãos dois pentes simples e sem graça. Um era perfeito, ao outro faltava um dente. O rapaz soube que havia encontrado o presente perfeito.
– doze centavos por esses pentes elegantes?-sugeriu o vendedor.
– Mas eu não tenho doze centavos – disse o rapaz.
– Bem, o que é que você tem? – guinchou o homem. E começaram a pechinchar.
Enquanto isso, de volta ao minúsculo quarto alugado, a jovem molhou o cabelo com um pouquinho d’água e o forçou a formar ondinhas em volta do rosto. Sentou-se, então, para esperar o marido.
– Que ele ainda me ache bonita assim mesmo – sussurrava ela, numa oração silenciosa.
Logo ela ouviu seus passos na escada. Ele entrou apressado, pobre criatura, magro como um poste, com o nariz vermelho, os dedos congelados, mas com toda a disposição e a esperança de recém-nascido. E ali na soleira, ele parou petrificado, olhando perplexo para a mulher.
– Ai, você não gostou do meu cabelo, meu querido? Você não gostou? Bem, por favor, diga alguma coisa. Para dizer a verdade, eu o cortei para com isso conseguir algo de bom para você. Por favor, diga alguma coisa, meu amor.
O rapaz estava dilacerado entre a dor e o riso, mas, afinal, o humor o dominou.
– Minha querida – disse ele, dando-lhe um abraço. – Aqui etá seu presente de Natal.
Do bolso ele tirou os pentes. Por um instante, o rosto dela se iluminou, depois todas as suas feições se entristeceram e ela irrompeu em lagrimas, praticamente uivando de dor.
– Meu amor – ele a consolava-, seu cabelo vai voltar a crescer um dia, e esses pentes ficarão maravilhosos. Não vamos nos entristecer.
– Está bem, então – controlou-se ela.
Sua felicidade voltou quando ela mostrou o presente que tinha para ele.
– E este aqui é o seu presente, meu marido.
E na palma da sua mão estava a corrente nua, seu presente obtido com sacrifício para ele.
– Há! – protestou ele, começando de um salto a andar de um lado para o outro. – Você sabe que vendi meu relógio para comprar seus pentes?
– Você vendeu? Vendeu? – exclamou ela.
– Vendi! Vendi! – gritou ele.
Eles se abraçaram, riram e choraram juntos, fazendo promessas mútuas de que o futuro seria melhor, sem dúvida, era só esperar para ver.
Pois, vejam só, embora haja quem possa dizer que esses dois jovens foram tolos e imprudentes, eles eram de fato como os reis magos que procuravam o messias. Mesmo que os reis magos, com as melhores intenções, trouxessem presentes de ouro, incenso e mirra, no fundo, aquilo que eles traziam no coração era o que tinha mais valor: seu desejo e sua devoção.
E o jovem casal neste caso, como os reis magos, também foram sábios, pois deram o mais precioso de todos os presentes possíveis. Deram seu amor, seu amor mais verdadeiro um ao outro.
E ele foi suficiente.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

A UM AMIGO DISTANTE



Você ai tão longe. 
Por que não me pede noticias?
Por que não manda também ? Por acaso você sabe como vão as coisas ? Você sabe como vou eu? Não.Nem sequer sabe que mudei de endereço, que encrespei o cabelo, que já não sou a mesma. As coisas continuam a acontecer , engraçadas e tristes, alegres e sombrias, mas eu não sou a mesma. Como todo o mundo, eu absorvi o tempo e a minha idade cresceu.Ando ainda em busca de emoções ? Talvez sim. No dia-a-dia, pequenas aventuras, pequenos nadas, grandes nadas, grandes vazios.

Ultimamente uma obsessão: o tempo passa muito depressa. 
E o que a gente faz com esta segunda, esta terça, esta quarta, esta quinta, esta sexta-feira? Este fim de semana? Estes dias todos que correm num ritmo alucinado? Hoje já é junho, amanha será natal depois de amanhã o ano 2008. Ah!... Se eu pudesse agarrar um momento bom desta vida! brincaria com ele indefinidamente, o tempo eternamente parado,eternamente preso em minhas mãos ...

Os momentos se perdem rapidamente no passado; não há mais tempo para vive-los.A memória já não registra os acontecimentos; eles mal são percebidos. Aquela mágoa, um outro dia que me arrancou lágrimas, que me trouxe tremenda revolta, já não lembro mais. 
Vivi a tristeza apenas por um segundo. Não pude fazer mais do que isso; o redemoinho dos momentos seguintes impediu a corrente de lágrimas. Rapidamente elas secaram, deixando sulcos no rosto duro, sério envelhecido.

Uma noite dessas qualquer, eu me lancei dentro da vida, descobri o que existe por detrás do pano negro que envolve o sono, mas que, para muitos, é apenas o pano de fundo de loucas alegrias, de loucas violências, de loucas alucinações.Vivi então um deslumbramento quase completamente desconhecido. Rostos novos, figuras estranhas desfilavam pela chuva, com um entusiasmo que não se molhavam, que se aquecia com sua própria intensidade. Mas foi também um rápido instante que se perdeu. O dia seguinte trouxe a transformação de um céu sem nuvens, um sol brilhante e as obrigações. A noite tinha passado para sempre.

Depois,  em uma ocasião festiva o romance se esboçou. Uma pessoa á muito tempo querida se aproximou de mim e, depois do burburinho da noite, me prometeu coisas, através de beijos que tinha sabor de um inicio. Essa pessoa, que veio ao encontro da minha passiva carência de afeto se mantém e estes momentos de felicidade não deverão se extinguirem. 

Estas são as minhas notícias. Se quiser, se puder manda as suas. Quem sabe, ai tão longe, sua vida é contrário da minha; quem sabe, ai tão longe o tempo se perca mais devagar.

by Deise Brandão



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