segunda-feira, 19 de abril de 2021

Ciência COMERCIAL e jornalismo estão unidos: Resultado é a desinformação

 

15.abr.2021 (quinta-feira) - 6h00
atualizado: 17.abr.2021 (sábado) - 21h44

A maior tragédia a atingir a humanidade nos últimos anos é a pandemia de covid-19. A 2ª maior tragédia é a sua cobertura jornalística. Nunca antes a ciência comercial e o jornalismo com fins lucrativos estiveram tão afinados –a ciência impossivelmente incontestável, o jornalismo desavergonhadamente crédulo. É fácil sustentar o que estou dizendo. Mesmo agora, quando a verdade ainda não teve tempo de subir à tona como um peixe morto, é possível cavar um pouco e descobrir o que se dizia antes da pandemia, na época em que certos assuntos ainda não tinham sido indexados como dogma pela Igreja do Medo e da Ignorância (Na Melhor das Hipóteses).

Em 2011, 9 anos antes de a ivermectina ser transformada em veneno pela repetição incessante de um comando hipnótico que age na cabeça dos menos pensantes como luz estroboscópica em epilético, o remédio era considerado uma “droga mágica”. Naquele ano, o NCIB, ou Centro Nacional de Informação de Biotecnologia dos EUA (parte do Instituto Nacional de Saúde, ou NIH), republicava um artigo de um dos jornais científicos mais respeitados do mundo, o Proceedings of the Japan Academy, Series B, fundado em 1912. Para quem tem se desinformado com as notícias, fica difícil acreditar no que vem a seguir.

Poucos remédios podem com seriedade se autointitular uma ‘droga mágica’”“como a penicilina e a aspirina”. A outra droga que pode se valer do mesmo título é a ivermectina, que “também pode ser considerada assim pela sua versatilidade, segurança e impacto benéfico”, e é considerada por muitos uma “das maiores conquistas médicas do século 20”. É verdade que quem escreveu esse artigo positivo sobre a ivermectina foi seu próprio descobridor, o cientista japonês Satoshi Omura. Mas algum mérito ele deve ter, porque em 2015 ele teve seu trabalho premiado com nada menos que o Nobel concedido a cientistas na área de Fisiologia ou Medicina.

Aquele artigo de 2011 não menciona a eficácia da ivermectina contra a covid-19, porque a covid-19 não existia. Mas em março deste ano, um artigo publicado no Japanese Journal of Antibiotics e co-assinado pelo mesmo Omura, defende seu uso, e diz que “com base em 14.906 pacientes em 42 estudos clínicos (incluindo ensaios randomizados controlados em 2.869 pacientes)”, a metanálise “registrou melhora em 83% dos pacientes com covid no tratamento precoce, 51% no tratamento tardio”, e teve sucesso em “89% na prevenção do início da doença”. Estima-se que “a chance de julgamento tão abrangente estar errado é de uma em 4 trilhões”.

Mas e a insuficiência hepática trombeteada por jornais como o Estadão, aquele cuja “checagem de fatos” disse que Lula não disse o que ele disse quando ele falou que “mesmo o político ladrão é mais honesto que um funcionário público concursado”*? Será que o Estadão errou de novo? Em nome de quem, ou do quê? Vejamos aqui a opinião de uma fonte um pouco mais confiável que o Estadão sobre o risco de insuficiência hepática causada pela ivermectina: a FDA norte-americana e seu banco de dados com o ranking conhecido como ‘dili’: drug-induced liver injury ou “danos ao fígado causados por remédios”. Ali é possível digitar o nome da substância e ver como ela se sai na classificação de possíveis danos ao fígado. São 4 os níveis, do mais baixo para o mais alto, e eu traduzo as classificações aqui literalmente: nenhum, menos, ambíguo ou mais. A ivermectina está na classificação “menos”, a 2ª mais baixa. A hidroxicloroquina também. A aspirina também. Para comparação, o ingrediente ativo do Tylenol, um remédio vendido como bala no Brasil, está sob a classificação de “mais”. A base de dados pode ser pesquisada online aqui: quantos de vocês viram isso nos jornais brasileiros? E quantos de vocês acham que isso deveria ser considerado informação essencial em meio a uma pandemia onde um cientista laureado com um Nobel recomenda o tal medicamento para o combate à covid?

Há que perguntar o que está por trás de tamanho silêncio, de um lado, e esse jogral jornalístico tão bem ensaiado do outro. Como é possível tantas vozes se calarem sem que precisem receber ordens pra isso, e tantas outras falarem a mesma coisa sem o menor sinal de discordância ou nuance? Eu tenho minhas próprias suposições, e uma delas é que existe uma orquestra que sempre toca direitinho sem nem precisar de partitura quando o maestro é Mamon, o rei do dinheiro. Existem outras possibilidades, claro, e uma delas é que quando um jornal compromete sua reputação em defesa de uma ideia tão perigosa, que pode ter consequências tão trágicas, ele vai fazer de tudo para se confirmar. Este artigo do Estadão tem o título “Após uso de kit covid, pacientes vão para fila de transplante de fígado; pelo menos 3 morrem” e ele é de uma mediocridade intelectual e jornalística tão irresponsável que um dia, eu prevejo, será estudado em aulas de ética jornalística. Digo isso com segurança porque quem diz que a ivermectina é segura não é apenas a FDA, mas a própria Merck.

Quantos de vocês viram a notícia, repetida ad vomitum, dizendo que a Merck não recomenda a ivermectina para o combate à covid? Essa informação é válida e importante, claro –a Merck tem uma certa autoridade para falar sobre esse medicamento porque ela é uma das maiores fabricantes da ivermectina, ainda que tenha perdido a patente em 1996. Mas se a Merck pode ser fonte sobre o não-uso de uma droga cuja exclusividade de fabricação e venda ela não detém mais, por que ela não serviria como fonte para informações sobre a segurança desse mesmo medicamento? Vejam bem: as duas coisas mais importantes na análise de remédios são, em 1º lugar, a segurança, e em 2º, a eficácia. Numa pandemia, medicamentos antigos têm prioridade porque eles já passaram no teste da segurança, e só falta confirmar a eficácia. Em outras palavras, eles são superiores a medicamentos novos porque, na pior das hipóteses, eles apenas deixariam de funcionar, mas não matariam ninguém. Por que, então, o Estadão não publicou nem uma nota sobre um vídeo promocional da própria Merck, com mais de 20 minutos, em que a empresa distribui ivermectina para crianças na África, com a participação de ninguém menos que o então presidente Jimmy Carter? Como pode a ivermectina não matar crianças de 5 anos no Chade e matar 3 pessoas na manchete do Estadão?

Antes da pandemia, podia-se ouvir falar de um médico agraciado com algumas reportagens nos jornais brasileiros. Seu nome é Cícero Galli Coimbra, e ele é neurologista da Unesp e diretor do seu Laboratório de Neuropatologia e Neuroproteção. Nessa entrevista à revista Veja, Coimbra fala de como vinha curando sintomas da esclerose múltipla só com vitamina D (que na verdade é um hormônio). Hoje ele defende o uso da mesma substância no combate aos sintomas da covid, mas o doutor Coimbra foi relegado ao fosso dos vídeos distribuídos pelo WhatsApp. Coimbra explica o que dezenas de estudos já vem confirmando: que a vitamina D de fato é eficiente em combater sintomas de várias doenças autoimunes, as mesmas que se assemelham a uma das maiores causas de morte na síndrome provocada pela covid: a “tempestade de citocinas”.

Existem várias outras doenças que podem ser atenuadas ou totalmente curadas com a luz do sol. Isso não é xamanismo –é ciência. Procure saber o que o sol faz com as células humanas, mas se lhe faltar tempo pra ler, faça o teste em uma planta que precisa de sol e veja o que acontece quando ela fica na sombra. Aqui alguns estudos sobre a vitamina D, que achei em uma busca de segundos: este (“O subestimado hormônio D-leitável que é importante para a saúde esqueletal e das células”), este (“Raio de sol e Vitamina D – ambos bons para a saúde cardiovascular”), este sobre a deficiência de vitamina D, e este (“Luz do sol e vitamina D para a saúde óssea e prevenção de doenças autoimunes, cânceres e doença cardiovascular”).

Todos esses artigos científicos têm uma coisa em comum, além da vitamina D: nenhum deles seria distribuído por uma assessoria de imprensa. O milagre científico da vitamina D é o tipo de benefício que você jamais vai encontrar em qualquer intervalo comercial, porque não existe ninguém para patrocinar o sol. O protocolo do Doutor Coimbra é mais um tratamento que não provocaria quase risco nenhum, e que ainda assim continua largamente ignorado pela imprensa, ainda que vários estudos mostrem uma correlação inegável: o maior número de mortes por covid acontece entre pessoas com menor nível de vitamina D no corpo. Falei disso aqui.

Enquanto tantos de nós desconhecemos os benefícios do sol, os benefícios do tratamento genético de mRNA estão nas capas de todos os jornais. Essas vacinas na verdade não são vacinas, porque falham nos critérios mais básicos para usufruir dessa classificação, entre outros o de que deveria produzir imunidade –mas vou deixar esse assunto para outro dia. Fico por enquanto com as palavras publicadas em nada menos que o British Medical Journal, em artigo assinado por um de seus editores associados, ditas por ninguém menos que Tal Zaks, Chief Medical Officer da Moderna, a empresa que apesar de nunca ter produzido um único remédio ou vacina, é a fabricante de um dos mais usados tratamentos de mRNA contra a Covid.

(Antes de eu continuar: Tenho visto reportagens sobre os coágulos advindos de algumas vacinas, inclusive da Moderna, mas não sou daquelas que se impressionam com esse tipo de reação estatisticamente ínfima –enquanto ínfima o for).

Pois bem, segundo Zaks, nesse artigo cujo título é “As vacinas da covid-19 salvam vidas? Ensaios atuais não foram projetados para esse fim”, a Moderna não tem como assegurar duas coisas que se esperaria de uma vacina para a covid: a prevenção de casos sérios da covid, e a prevenção da morte pela doença. “Eu gostaria de saber se a vacina [da Moderna] previne a mortalidade? Claro, porque eu acredito que ela previne. Eu só não acho que seja possível [afirmar isso] dentro do período do ensaio clínico”. Imagina quem tem medo da ivermectina, uma droga usada há décadas: o que deve sentir ao ler isso sobre uma tecnologia tão nova e testada apenas por testes “não projetados para esse fim”?

Mudando de assunto, segundo a Pfizer, a fabricante de outro tratamento de RNA mensageiro, em reportagem do Chicago Tribune, sua arrecadação em 2021 será de US$ 15 bilhões só com a venda das vacinas. Isso é dinheiro pra comprar todos os jornais do mundo, e funcionários de governo, secretários de Saúde, influenciadores digitais. Longe de mim dizer que existe corrupção na mídia e na política. Estou apenas dizendo que US$ 15 bilhões têm um poder de compra descomunal. Como disse Bill Gates em dezembro de 2019 no seu perfil no Twitter, “Qual o próximo passo para a nossa fundação? Eu estou particularmente animado sobre o que o ano que vem pode significar para um dos melhores investimentos (best buys) em saúde global: vacinas”. O tweet tem link para um artigo publicado no site da Fundação Bill e Melinda Gates, mas quando se chega lá a mensagem é a seguinte: “Sentimos muito, mas a página que você procura não foi encontrada”. Pelo URL pode-se ver que esse artigo estava sob uma sessão intitulada “O Otimista”. É uma polyana esse bill gato, né não?


Atualização – Este artigo foi atualizado em 16.abr.2020, às 20h44, para incluir um esclarecimento da articulista sobre a referência ao jornal Estado de S. Paulo. Leia abaixo:

* O fato narrado aqui é o poder decisório que jornais têm de definir o que é “boato” e, como diz sua própria nota copiada abaixo, o poder de determinar a redução da circulação desses supostos boatos no Facebook, possivelmente o maior entreposto de notícias no mundo inteiro.

O Estadão escolheu desmentir o “boato” de que o Lula teria dito “mesmo o político ladrão é mais honesto que um funcionário público concursado”, o que de fato ele não disse. Mas o que o Lula disse é praticamente a mesma coisa. Aqui suas palavras, tiradas do próprio vídeo que está na página do Estadão: “Mas a profissão mais honesta é a do político, sabe por quê? Porque todo ano, por mais ladrão que ele seja, ele tem que ir para a rua encarar o povo e pedir voto. O concursado não”. Por isso deixei lá a frase que o Estadão decidiu desbancar. Porque o que me interessa ali é: por que perder tempo com algo que, na essência, não tem nada de boato? A quem serve esse imprimatur de “falso”? Quem ele beneficia? E contra quem é usado?

Como juiz, o jornal decide o que é mentira. E, como polícia, o jornal reduz a circulação daquela verdade.

E por falar em inanidades reveladoras, o print em questão mostra 2 anunciantes do Estadão nessa época de pandemia: Janssen, a vacina, e Johnson, a fabricante.

O Poder360 i

 

Ministro Gilmar Mendes dá 10 dias para que estados expliquem lockdown e toque de recolher


19 de abril de 2021 13:00
Bruna Lima
© Valter Campanato/Agência Brasil



O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), pediu no último dia 15 que os estados de São Paulo, Acre, Amapá, Bahia, Rio Grande do Sul, Sergipe e Piauí no âmbito da AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE (ADI) 6788.

A ADI foi protocolada no STF pelo Diretório Nacional do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) no dia 5 de abril, como o pedido de medida cautelar contra os Decretos Estaduais que estabelecem lockdowns e toques de recolher nos estados em questão.

O PTB alega que as normas adotadas pelos governadores violam diretos fundamentais, em particular, o direito à liberdade de locomoção e ao trabalho.

Na decisão publicada no Diário da Justiça Eletrônico (página 76) da última sexta-feira (16), o ministro Gilmar Mendes dá o prazo de 10 dias para que os governo de São Paulo, Acre, Amapá, Bahia, Rio Grande do Sul, Sergipe, Piauí, Paraná e Mato Grosso do Sul se expliquem sobre os decretos.

Após a entrega das informações, o juiz da Suprema Corte também determinou que os autos sejam encaminhados ao Advogado-Geral da União e ao Procurador-Geral da República, para que estes se manifestem sobre a questão no prazo de 5 dias.

Em uma outra decisão no âmbito da ADI 6788, o ministro também autorizou a entrada do Sindicato dos Médicos no Estado do Paraná (Simepar) como amicus curiae da ação.

O presidente do PTB nacional, Roberto Jefferson, criticou o prazo dado pelo ministro do STF aos governadores, em especial o da Bahia, o petista Rui Costa.

“Gilmar Mendes deu 10 dias para o governador petista da Bahia prestar informações sobre as medidas restritivas que adotou. Quando é Bolsonaro, STF dá 48hs, 72hs, para entregar explicações. Já o governador petista ganhou dez dias para se explicar”, disse ex-deputado federal. “E dizem que a Justiça é cega…”, completou.

Além dos governadores, Gladson Cameli (PP), Waldez Góes (PDT), Rui Costa (PT), Eduardo Leite (PSDB), João Doria (PSDB), Belivaldo Chagas (PSD) e Wellington Dias (PT), os Procuradores-Gerais de cada estado também deverão se manifestar sobre os decretos.
by Terça Livre

Fernando Collor e Renan Calheiros perpetuam-se no poder a partir dos filhos

 

IN BANCADA RURALISTADE OLHO NA POLÍTICAEM DESTAQUEPRINCIPALSEM CATEGORIAÚLTIMAS

Aliado de usineiro acusado de trabalho escravo, Collor lança o caçula para a Câmara; à frente do governo estadual, Calheiros acumulam fazendas e bois

Por Bruno Stankevicius Bassi

Desde que readquiriu seus direitos políticos, em 2002, o ex-presidente Fernando Collor de Mello tem expandido seu poder em Alagoas, em aliança com famílias usineiras. De volta ao PTC (ex-PRN). o senador cogitou disputar novamente a Presidência em 2018, 26 anos após o impeachment. O projeto não foi acolhido pelo partido, que preferiu apoiar a candidatura de Álvaro Dias (Pode-PR) e lançar o senador alagoano ao governo do estado.

Na sexta-feira (14/09), Collor anunciou que abdicará de concorrer a governador. Ele ficará no Senado até 2022. Com a desistência, o ex-presidente passa a compor a chapa do governador Renan Filho (MDB), filho do senador Renan Calheiros. candidato à reeleição. Segundo Collor, houve “falta de reciprocidade” de sua coligação durante a construção da candidatura.

Mas seus planos tiveram eco entre seus aliados em Alagoas. Um dos principais apoiadores de sua naufragada candidatura à presidência foi o empresário e político João Lyra (PSD), pai de Thereza Collor, a viúva de Pedro Collor de Mello (morto em 1994), o irmão do ex-presidente que, ao delatar o esquema de corrupção em seu governo, precipitou sua queda em 1992.

A LENTA DERROCADA DO CORONEL DE COLLOR

João Lyra (esq.) na inauguração do comitê de campanha de Collor, em 2010. (Foto: Reprodução)

Aliados na política, Fernando Collor e João Lyra também tinham interesses econômicos em comum. Segundo a delação premiada do ex-diretor da Petrobras, Nestor Cerveró, o senador alagoano pediu que a BR Distribuidora, braço da estatal, fizesse uma compra antecipada da safra de etanol de Alagoas em 2010, no valor de R$ 1 bilhão. Lyra, beneficiário direto da operação, participou da reunião. O pedido não foi atendido, mas pouco depois a Laginha Agro Industrial recebeu um crédito de R$ 50 milhões.

Em 2014, a Laginha Agro Industrial efetuou um pagamento de R$ 300 mil para a Gazeta de Alagoas, de propriedade de Collor. A operação apareceu em um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) sobre transações atípicas. Segundo a Procuradoria-Geral da República, o repasse era referente a propina. Desde agosto de 2017, o senador alagoano é réu na Operação Lava Jato.

Por décadas, João Lyra foi um dos maiores usineiros de Alagoas, considerado uma síntese do coronelismo no estado. Deputado federal por dois mandatos (2003-2006 e 2011-2014), Lyra deixou o Congresso para concorrer a governador, em 2006. Na época, era o segundo candidato mais rico do Brasil, com um patrimônio de R$ 236 milhões. Apesar da fortuna gasta para financiar a própria campanha, perdeu a eleição para Teotônio Vilela Filho (PSDB).

Usina Laginha: de império econômico a massa falida. (Foto: Divulgação)

No auge de seu poder, Lyra tinha seis fazendas próprias e outras 97 propriedades vinculadas à usina Laginha Agro Industrial S/A. No total, 27 mil hectares de canaviais, segundo dados apresentados na dissertação da geógrafa Sandra Helena Gonçalves Costa, defendida na Universidade de São Paulo (USP). Seu irmão, Carlos Lyra, também usineiro e ex-senador, é dono de outros 24 mil hectares divididos em 28 imóveis, além da Varrela Pecuária.

Mas o império ruiu. Em 2016, as dívidas do Grupo João Lyra chegavam a R$ 2 bilhões, dez vezes o patrimônio declarado à Justiça eleitoral. Com as atividades paralisadas, 4 mil hectares de terras improdutivas do grupo foram ocupadas por famílias camponesas.

Antes de se tornar massa falida, a Laginha Agro Industrial esteve envolvida com trabalho escravo. Em 2010, 207 trabalhadores foram resgatados de uma das fazendas do Grupo João Lyra, em Capinópolis (MG). Dois anos antes, 53 trabalhadores foram mantidos em condição análoga à escravidão em União dos Palmares (AL), município sobreposto às terras que, no século 17, abrigaram o quilombo de Zumbi e Dandara.

DINASTIAS SE PERPETUAM NA POLÍTICA E NO AGRONEGÓCIO

Por “erro de digitação”, Collor declara fazenda pertencente a Arthur Lira (PP). (Imagem: Reprodução/Buzzfeed News)

Em Alagoas, é comum que famílias usineiras criem suas próprias dinastias políticas, como vimos na outra reportagem da série sobre Alagoas: “Usineiros e seus defensores dão as cartas na política alagoana“. O caso de Collor não é exceção: Fernando James (PTC), filho mais novo do senador, reconhecido apenas em 1998, concorrerá a deputado federal.

As eleições de 2018 também trouxeram um fato novo. Neto de senhor de engenho, Fernando Collor nunca havia declarado terras: a fortuna de sua família vem da Organização Arnon de Mello, um dos maiores conglomerados de mídia do Nordeste. No entanto, uma reportagem do BuzzFeed News identificou que, na relação de bens entregues por Collor à Justiça eleitoral, apareciam fazendas e outros bens que também constavam, de forma idêntica, na declaração do deputado federal Arthur Lira (PP).

O desembargador do Tribunal Regional Eleitoral de Alagoas, Paulo Zacarias da Silva, atribuiu a duplicação a um “erro de digitação“. O PP de Arthur Lira compõe a chapa que lançou Fernando Collor na disputa ao governo de Alagoas.

Além do filho caçula, a ex-cunhada, Thereza Collor (PSDB), filha de João Lyra, também disputa uma vaga na Câmara, mas pelo estado de São Paulo, onde está radicada desde 2000. Ela é acompanhada por outra figura icônica dos anos 1990: a ex-primeira dama Rosane Brandão Malta (PHS) busca uma vaga de deputada estadual em Alagoas. Apesar da relação conflituosa com o ex-marido, Rosane ainda ostenta o sobrenome Collor na urna.

Olavo Monteiro de Carvalho com os sócios Maurício Odebrecht e Ivete Sangalo. (Foto: Divulgação/Fazenda Santarém)

Os filhos mais velhos de Collor se mantiveram fora da política, mas próximos do agronegócio. Arnon Affonso e Joaquim Pedro são frutos do primeiro casamento do ex-presidente, com Lilibeth Monteiro de Carvalho, herdeira do Grupo Monteiro Aranha. A holding de R$ 1,25 bilhão é uma das principais acionistas da Klabin S/A, maior produtora de papel do Brasil e dona de 494 mil hectares. Em abril, com a reestruturação do grupo, os filhos de Fernando Collor assumiram o conselho de administração do grupo.

A mudança veio após a aposentaria de Olavo Egydio Monteiro de Carvalho, primo de Lilibeth. Ele resolveu se dedicar integralmente à pecuária. Na Fazenda Santarém, em Três Rios (RJ), Olavo cria vacas premiadas em parceria com a cantora Ivete Sangalo. Criado em 2007, o Condomínio Monteiro Sangalo contava com participações ilustres: além de Maurício Odebrecht (irmão menos famoso de Marcelo Odebrecht) e Jorge Picciani (MDB/RJ) – o ex-deputado fluminense que já foi personagem desta série De Olho na Bancada Ruralista, assessorou seu amigo Olavo e compartilhou sua longa experiência com a criação de gado Nelore.

AS VACAS FÉRTEIS DE RENAN CALHEIROS

Antigos aliados, Collor e Renan Calheiros novamente dividirão palanque. (Foto: Reprodução)

O beneficiário direto da desistência de Fernando Collor em concorrer ao governo de Alagoas é Renan Filho (MDB). Com a saída do ex-presidente, o filho do senador Renan Calheiros (MDB) lidera isolado as pesquisas de intenção de voto e deve confirmar sua reeleição para governador, com apoio do ex-presidente.

Os Calheiros são donos da Agropecuária Alagoas, com 2.874 hectares em Murici (AL). Em 2007, a empresa tornou-se pivô de um escândalo envolvendo o pai, Renan, e sua amante, Mônica Veloso. Investigado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), sob suspeita de usar dinheiro de propina para pagar pensão à jornalista, com quem teve uma filha, o senador alegou que obteve seus rendimentos da venda de bois.

No entanto, o valor declarado pelo senador colocaria suas fazendas entre as mais rentáveis do país. O valor da arroba comercializada pela Agropecuária Alagoas entre 2003 e 2006 era superior à média de São Paulo, um dos mercados mais valorizados em genética bovina. Isso durante um período em que Alagoas estava na zona de risco de febre aftosa.

Governador Renan Filho (MDB) em reunião com usineiros. (Foto: Divulgação/Agência Alagoas)

A taxa de nascimento de bezerros nas fazendas de Renan também foi considerada suspeita: 86% de suas vacas pariram com sucesso, enquanto fazendas de alta tecnologia alcançavam, a duras penas, uma taxa de desmame de 73%. Uma dessas fazendas, a Cocal, estava registrada em nome de uma ex-empregada doméstica da família, falecida em 1997.

No governo de Alagoas, Renan Filho tem tentado reverter a crise que assola o setor sucroalcooleiro. Na safra 2017/2018, o estado produziu 13 milhões de toneladas de cana, menos da metade de sua média histórica. O resultado é fruto da falência de dezenas de grupos usineiros, como o de João Lyra.

Para salvar o setor, que representa 8% do Produto Interno Bruto de Alagoas, Renan Filho voltou atrás em sua convicção de não reduzir os impostos das usinas e anunciou, em julho deste ano, a diminuição do ICMS para as atividades de produção e beneficiamento de cana de açúcar. Com a isenção, os usineiros devem faturar, na próxima safra, R$ 4 bilhões a mais.


Em Alta

Sincericídio de Luiz Inácio. Ou da cópia dele.

Sim, no dia 24 de março de 2026, durante a cerimônia de sanção do "PL Antifacção" (projeto de lei que endurece regras para facções...

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