Imagem: Correio Braziliense (reprodução online)
O reaparecimento de uma antiga coluna do Wall Street Journal, publicada em 10 agosto de 2025. e. agora reciclada nas redes como se fosse atual, escancara mais do que desinformação. Ela revela um desconforto difuso, uma sensação coletiva de que algo se rompeu na democracia brasileira — ainda que muitos insistam em apontar o dedo para um único ator.
Mas é preciso colocar a questão de ordem.
A falácia do “culpado único”
Reduzir a crise institucional brasileira à figura de um ministro, de uma Corte ou de um ex-presidente é politicamente confortável, mas intelectualmente desonesto.
Bolsonaro não é a exceção. É parte do arranjo.
Outro erro recorrente é tratar Jair Bolsonaro como ruptura do sistema, quando ele foi — do começo ao fim — produto e operador dele.
Bolsonaro:
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Não enfrentou o Congresso
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Não desmontou o Estado
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Não rompeu com o centrão
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Não devolveu poder ao povo
Ele negociou, cedeu, compôs — como todos os outros.
O conflito que se vendeu como “ideológico” foi, na prática, disputa de controle interno do Estado, não libertação popular.
Não é direita vs. esquerda. É povo vs. Estado.
Aqui está o ponto que ninguém quer tocar.
O Brasil se autodeclara:
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uma democracia
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um Estado de Direito
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uma República com Poderes independentes
Mas funciona como um Estado fechado, autorreferente, corporativo, blindado contra o controle popular.
Enquanto a sociedade discute nomes, siglas e narrativas morais, o Estado:
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legisla em causa própria
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julga em circuito fechado
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executa sem transparência
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se protege mutuamente quando erra
Socialismo institucional, capitalismo para poucos
O modelo brasileiro é paradoxal:
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Socializa perdas
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Privatiza ganhos
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Centraliza poder
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Dilui responsabilidades
Questão de ordem
O reaproveitamento oportunista de uma coluna antiga do Wall Street Journal não deveria servir para demonizar este ou aquele ministro, nem para reabilitar personagens políticos fracassados.
Deveria servir para algo muito mais incômodo:
Há apenas um dado incontornável:
Quando os três Poderes falham juntos, não é crise — é método.
E enquanto a sociedade não compreender que o jogo é povo vs. Estado, continuará presa à alternância de nomes, não à transformação do sistema.