Russos lamentam o fim da URSS e sonham com a volta dos dias de protagonismo político


05/01/2011 - 09h47

Os russos ainda sonham com a volta da poderosa União Soviética em 2011, quando se completam duas décadas do desaparecimento do estado totalitário.
"As mudanças na vida econômica devem ser realizadas por homens livres, gente livre em seus atos e em suas ideias", afirmou recentemente o presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, que tinha 26 anos quando a URSS caiu, em 1991.
O caso é que os habitantes da Federação Russa ainda não valorizam as liberdades individuais como o fazem com as conquistas sociais que a União Soviética garantia: empregos fixos, educação e saúde gratuitas, moradia acessível e previdência.
Segundo uma pesquisa realizada pelo centro de sociologia Levada, 55% dos russos lamentam a desintegração soviética. O primeiro-ministro Vladimir Putin a classificou como "a maior catástrofe geopolítica do século XX".
Ivan Sekretarev/AP
Levando bandeiras do Exército Vermelho, russos vestidos com uniformes da URSS na Segunda Guerra marcham na praça Vermelha
Levando bandeiras do Exército Vermelho, russos vestidos com uniformes da URSS na Segunda Guerra marcham na praça Vermelha
Essa porcentagem é um reflexo da opinião dos adultos russos, já que entre os jovens (17%) e os maiores de 60 anos (83%) as posturas são muito extremas.
"Quem não lamenta a desintegração da URSS não tem coração, mas aquele que deseja seu renascimento não tem cabeça", disse Putin em meados de dezembro.
Essa frase é um espelho do ânimo de muitos russos, que dizem sentir falta de viver em um Estado respeitado e temido em todo o mundo, mas se mostram conscientes ao reconhecer que a experiência soviética é irrecuperável e agora faz parte da história.
Ainda de acordo com a pesquisa, 53% dos russos acreditam que a desintegração da URSS era evitável, enquanto 32% pensam o contrário.
Isso demonstra a razão de muitos cidadãos locais seguirem culpando o último dirigente soviético, Mikhail Gorbachev, de ter posto um ponto final à URSS ao concordar com todas as reivindicações dos Estados Unidos, considerados o país "vencedor" da Guerra Fria.
Desde então, os EUA são a única superpotência mundial, embora sejam seguidos de perto pela China, enquanto a Rússia ainda não superou o trauma do fim do comunismo.
Outro exemplo dessa nostalgia do antigo regime é que mais da metade dos entrevistados defendem o reforço dos laços entre as 15 ex-repúblicas soviéticas, pela reinstalação da URSS e a criação de um bloco à imagem e semelhança da União Europeia.
Os russos ainda apostam firmemente nas semelhanças entre os antigos povos soviéticos, especialmente com outros países eslavos, como Ucrânia e Belarus, e também com o Cazaquistão, que possui uma importante minoria russa.

POPULAÇÃO CONSERVADORA

Conforme a pesquisa, muitos cidadãos russos ainda têm maior identificação com a mentalidade conservadora de Putin do que com o ideário liberal de Medvedev, que defende que a "emancipação" do povo russo ainda é uma disciplina pendente.
"Nunca houve democracia em nosso país antes de 1991. Repito, nunca. Nem sob o czar, nem durante a era soviética, nem em nenhuma outra época. É um processo difícil", afirmou Medvedev no 20º aniversário do jornal governamental "Rossiyskaya Gazeta".
Medvedev, que preside o país sob a sombra de Putin, reconhece que "a democracia é impossível em um país pobre", mas matiza que "o progresso de uma economia moderna é impossível em condições de ditadura".
Enquanto isso, Putin, que, nos últimos anos, criticou as repressões stalinistas, é acusado de iniciar uma campanha de "neosovietização" da sociedade russa, que inclui a reabilitação dos símbolos soviéticos.
O próprio Mikhail Gorbachev acusou o partido governista Rússia Unida, liderado por Putin, de se transformar no novo Partido Comunista da União Soviética (PCUS), ao acolher em seu seio exclusivamente burocratas interessados em se beneficiar de sua proximidade do poder.
Gorbachev, que completará 80 anos em março, anunciou o fim da União de Repúblicas Socialistas Soviéticas pela televisão em 25 de dezembro de 1991.

IGNACIO ORTEGA

DA EFE
Folha de São Paulo

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