Cem anos após a 1ª, quais as chances de uma 3ª guerra mundial?

John Simpson

2014 
  
Cemitério da Primeira Guerra Mundial em Ieper, na Bélgica (AP)
Cemitérios com soldados mortos durante a Primeira Guerra Mundial estão espalhados pela Europa, como este, perto de uma ferrovia na Bélgica
Parece improvável que, cem anos depois do início da Primeira Guerra Mundial, outra guerra nesta escala possa ser desencadeada.
Mas era exatamente isto que as pessoas acreditavam antes do assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando e de sua esposa dele por um extremista sérvio em junho de 1914.
Atualmente, existem no mundo alguns focos de conflito: a Europa e a Rússia vivem um momento de tensão devido à situação na Ucrânia, e a China e o Japão também discutem a posse de algumas ilhas no Mar do Leste da China.
Em tempos como estes, há dois riscos específicos. O primeiro é que países menores possam arrastar os maiores para conflitos.
Em 1914, após o assassinato do arquiduque, Rússia, França e Grã-Bretanha se envolveram com o lado sérvio, enquanto a Alemanha apoiou a Áustria.
O segundo risco é que os governos fiquem tentados a acreditar que podem iniciar guerras limitadas e bem-sucedidas que vão acabar rapidamente. Geralmente eles estão errados.

Literatura

Nos dias de hoje presumimos que nosso mundo globalizado está conectado demais para que uma guerra mais ampla aconteça. Talvez, mas em 1910, um homem chamado Norman Angell também pensava assim.
Angell escreveu o livro A Grande Ilusão para provar que a guerra seria uma loucura, devido aos laços comerciais existentes entre as grandes potências na época.
O livro foi um grande sucesso mas, apesar de Angell estar certo em sua percepção de que um conflito seria insano e de ter recebido o Prêmio Nobel da Paz 22 anos depois, a guerra aconteceu de qualquer jeito.
No entanto as coisas mudaram muito em cem anos. Não importa o que possa parecer, nosso mundo é menos perigoso, e a tendência à guerra é menor do que era.
A ameaça de um conflito nuclear generalizado também não existe mais.
No momento, existem mais de 30 guerras em andamento no mundo. Mas elas tiram menos vidas humanas do que antes.
Entre 1950, quando a Guerra da Coreia começou, e 2007, quando o número de mortes na Guerra do Iraque finalmente começou a cair, ocorriam algo perto de 148 mil mortes por ano devido a guerras.
De 2008 a 2012 este número caiu de forma dramática, para 28 mil por ano. E poderá ser ainda menor em 2014.
Ao analisar os números de uma forma um pouco diferente, vemos que nos 14 anos do século 21, até o momento, o número médio de mortes em guerras foi de 55 mil - apesar de sempre haver uma polêmica cercando estes números, principalmente no que diz respeito ao número preciso de pessoas que morreram no Iraque depois da ofensiva americana e britânica no país.
Mas este número é a metade do que foi registrado na década de 1990 e um terço do número de mortes que ocorreram durante a Guerra Fria.
Teremos uma guerra mundial em um futuro próximo?
Não podemos saber mais do que Norman Angell sabia em 1910 quando lançou seu livro. Mas, desta vez, com certeza, é mais seguro esperar que não teremos.




Maurício Santoro

Assessor de direitos humanos da Anistia Internacional

29/06/2014

Cem anos atrás, no dia 28 de junho de 1914, um militante nacionalista da Sérvia assassinou com um tiro o herdeiro do trono do império da Áustria-Hungria em represália à ocupação de territórios disputados por ambos os Estados. Esse foi o estopim que deflagrou a Primeira Guerra Mundial. De agosto daquele ano até novembro de 1918, mais de 15 milhões de pessoas morreram no conflito. As monarquias da Alemanha, Áustria-Hungria, Rússia e Turquia foram derrubadas por revoluções. O mapa da Europa e do Oriente Médio foi redesenhado com o (re)aparecimento de países como Iugoslávia, Líbano, Palestina, Polônia, Síria e Tchecoslováquia.
As causas da Primeira Guerra Mundial ainda são um tema controverso, sobretudo pelos debates sobre a responsabilidade germânica na deflagração do conflito. No início do século XX a Europa era dividida em duas grandes alianças militares, uma formada pela Alemanha, Áustria-Hungria e Itália, outra pelo Reino Unido, França e Rússia. O ataque a um desses países provocaria o enfrentamento também com seus aliados.
Diversos fatores levaram à formação desses blocos rígidos: o medo do poderio crescente do império alemão, que havia anexado duas províncias francesas (Alsácia e Lorena) e iniciado a construção de uma marinha de guerra que desafiaria a supremacia naval britânica, os conflitos para colher os frutos do declínio do império otomano (turco) nos Bálcãs e no norte da África e a competição cada vez mais acirrada por territórios e mercados globais pelas potências europeias.
A guerra começou na Europa e logo se espalhou para o resto do planeta, pelas redes coloniais e imperiais ou pelos laços de comércio e investimento. Estados Unidos, Japão e Turquia e Brasil, entre outras nações, também participaram do conflito, unindo-se a uma das alianças. A Itália mudou de lado, seduzida por promessas de expansão territorial. Foi, de fato, uma guerra mundial, ainda que seu epicentro tenha sido as crises europeias.
A maior parte dos líderes políticos e militares que iniciaram a guerra acreditavam que ela seria de curta duração, de no máximo poucos meses, como haviam sido os conflitos entre Rússia e Japão (1905), França e Prússia (1870) e os combates pela unificação da Alemanha e da Itália (décadas de 1840-70). Essa era uma expectativa fora da realidade. O desenvolvimento de novas armas, como metralhadoras e fuzis mais eficientes e a mobilização melhor organizada do poder industrial de cada Estado criaram máquinas bélicas devastadoras, com todo o poderio de modernos Estados industriais.
Batalhas como Somme, Verdun e Ypres resultaram em centenas de milhares de mortes. Na Turquia, o governo lançou uma campanha de extermínio contra a minoria armênia, cristãos que auxiliaram a Rússia. Por toda a parte, os custos econômicos e sociais da guerra significaram inflação galopante, problemas de escassez de alimentos e a devastação emocional de tantas mortes, mutilações e ausências prolongadas dos homens de suas famílias.
Para os padrões atuais, os governos que lutaram a guerra não eram democracias plenas. Mesmo nos mais progressistas entre eles, as mulheres não podiam votar ou ser eleitas para cargos públicos. Rússia e Turquia eram regimes autoritários. O conflito foi popular nos meses iniciais e mesmo os partidos de oposição - como as siglas operárias, socialistas e sociais-democratas - apoiaram seus governos aprovando créditos extras para as Forças Armadas.
Com o decorrer das batalhas, a insatisfação aumentou, culminando com o motim do Exército francês em 1917 - uma espécie de "greve armada" contra as más condições a que estavam submetidos os militares, que levou a várias reformas. No mesmo, estouraram duas revoluções na Rússia. A primeira, em fevereiro, derrubou a monarquia e instituiu uma fragilíssima república. A de outubro estabeleceu o regime comunista, retirou o país da guerra e publicou documentos secretos que mostravam as manipulações oficiais, como acordos para trocas de território - o antecessor do Wikileaks.
Nos países derrotados (Alemanha, Áustria-Hungria, Turquia) o fim da guerra foi seguido de rebeliões, instabilidade e mudança de regime político. Os turcos ainda tiveram que lutar mais outro conflito, contra a Grécia, que cobiçava boa parte de seu território, e que resultou no massacre ou expulsão da maioria da população de origem grega que vivia no antigo império otomano.
A guerra na Europa acabou por exaustão dos alemães e austro-húngaros, e não por batalhas decisivas. Desde a entrada dos Estados Unidos no conflito, em 1917, a aliança contra as potências centrais ganhou um fortíssimo afluxo de tropas e recursos econômicos. O presidente americano Woodrow Wilson propôs seus célebres 14 pontoscomo base de uma paz que não puniria ninguém, mas não foi isso o que aconteceu. Os vitoriosos exigiam recompensas para mostrar às suas populações que o sacrifício não fora em vão e impuseram pesadas indenizações financeiras e perdas territoriais à Alemanha. O país nunca pagou integralmente as reparações, mas elas contribuíram para o clima de ressentimento e ódio no qual o nazismo nasceu e cresceu.
No Oriente Médio, Reino Unido e França derrotaram militarmente o império otomano e dividiram entre si suas províncias árabes - Iraque, Palestina e Jordânia para os ingleses, Síria e Líbano para os franceses. A Arábia tornou-se independente sob a casa real dos Hashemitas, que haviam lançado uma guerrilha contra os turcos, organizada pelo coronel britânico Thomas Edward Lawrence. O ímpeto colonial na região enfureceu os nacionalistas árabes, ainda mais por que os britânicos se comprometeram por meio da Declaração Balfour a criar um lar para os judeus na Palestina, sem consultar os habitantes da Terra Santa.
A Primeira Guerra Mundial não resolveu os problemas da Europa e criou uma situação ainda mais instável no continente, que explodiria novamente em 1939, no segundo conflito de âmbito planetário. O Oriente Médio ainda vive os efeitos catastróficos dos resultados dos combates de um século atrás. Mas a rejeição aos massacres teve como consequência também a criação da Liga das Nações e os esforços importantes, mesmo que falhos e incompletos, de buscar soluções pacíficas para as controvérsias globais.

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