Dos esqueletos que a Irlanda guarda no armário


DOMINGO, 15 DE JUNHO DE 2014

Então que eu estou vivendo na Irlanda há um ano. Tenho realmente muitas coisas positivas a dizer sobre o país. Além de ser um lugar lindíssimo, eu estou gostando muito de morar em uma cidade pequena (cerca de 75 mil habitantes) em que posso andar pra tudo quanto é lugar, sem precisar dirigir. Aqui em Galway praticamente não tem verão mas, apesar do frio, a cidade é charmosa, artística, vibrante e feliz


Uma coisa, entretanto, me chamou atenção desde o momento em que coloquei meus pés aqui: a luta pelos direitos das mulheres ecoa e muito as pautas brasileiras. Também não era pra menos: tratam-se de dois países profundamente influenciados pela Igreja Católica, que tanto cá quanto aí, manda e desmanda na sociedade em geral, dando as cartas na política e cultura locais. 

A influência da religião na vida da população se reflete no tratamento misógino dado às mulheres: a Irlanda é um dos países com as leis mais rígidas do mundo no tocante ao aborto. Teoricamente, por aqui só se aborta em casos em que há risco de morte para a gestante. Trata-se de uma lei nova que ainda vai levar um tempo para ser absorvida pela sociedade. É parcialmente resultante do caso que narro abaixo.

Em 2012, a morte de Savita Halappanavar causou furor em boa parte da sociedade. Ativistas pró-escolha foram às ruas protestar contra a negligência do Estado para com as mulheres. O que aconteceu com Savita exatamente? Bom, sintam-se livres para googlar o nome dela, porque eu vou fazer um resumão bem resumido aqui: a Savita estava grávida de 17 semanas quando entrou em processo de abortamento natural. Ela procurou o hospital local, aqui em Galway, e os médicos se recusaram a fazer a interrupção da gravidez nela, porque "a Irlanda é um país católico". Sim, foi essa a justificativa. Em pleno 2012. Savita morreu de complicações decorrentes de uma infecção generalizada. 

Espero que tenha ficado claro que o caso acima aconteceu em um país europeu, em uma cidade "moderninha" em que as pessoas são altamente educadas e extremamente descoladas em suas aparências. Acontece que as aparências, amigues, elas enganam. Mas isso é o tipo de nuance que você só vai entender quando passa um bom tempo em determinado lugar. A mente irlandesa ainda é muito conservadora e fechada no tocante à sexualidade. No que diz respeito à sexualidade da mulher, então, a desinformação/preconceito rolam soltos. Eu lembro do meu choque ao ir em uma palestra da fundadora de uma ONG local de saúde reprodutiva. Na década de 90, NOVENTA, ela enfrentou uma forte reação conservadora da sociedade, por ousar distribuir camisinhas e pílulas anticoncepcionais às mulheres. 

Toda a narrativa acima serve de pano de fundo para o que eu quero discutir no texto que vos fala: foram encontrados esqueletos de cerca de 800 bebês e crianças que morreram em um asilo para mães e bebês aqui da Irlanda. Asilo que fazia parte de uma rede imensa que tinha instituições do tipo por toda a Europa. Estima-se que seja a ponta de um imenso iceberg de descarada violação de direitos humanos. Há várias narrativas populares apontando para outros casos de bebês que foram simplesmente jogados em valas comuns, sem identificação, sem velório, sem nada. E a Igreja Católica está envolvida até o pescoço nisso.

O asilo para mães e bebês que funcionava em Tuam, onde as ossadas foram encontradas. 
Mas do que se tratam os tais asilos? Bom, eu vou novamente resumir bastante, mas deixo umlink informativo aqui, caso interesse.Tratam-se de instituições de ""reabilitação"" de mulheres consideradas desviantes. Pra ICAR, obviamente, o desvio está em ser humana, em fazer sexo, basicamente. Mulheres pobres, estrangeiras, ciganas também entravam na roda da humilhação. Eu li bastante coisa, mas os relatos que ouço das minhas amigas irlandesas me deixam ainda mais horrorizada: essas mulheres eram forçadas a trabalhar em lavanderias gerenciadas por freiras. Trabalho exaustivo, pouca comida, tratamento médico zero, muitas doenças (parece que as lavanderias que tratavam de roupas de hospitais eram as piores) e um frio de lascar. Era assim que a Igreja imaginava que reabilitaria essas mulheres, cujo grande crime foi ter feito sexo: na maioria dos casos, antes do casamento.


O sadismo era tanto que essas mulheres tinham tratamento médico negado no pós-parto. Muitas morriam de infecção generalizada, pois as freiras se negavam a prover-lhes antibióticos. As crianças eram extremamente mal-cuidadas e mal-tratadas. Acreditava-se por aqui que filho bastardo coisa boa não poderia ser, então a política era deixar morrer. As que tiveram sorte suficiente de sobreviver eram enviadas pelas freiras à escolas católicas, e tinham que se sentar distante das crianças "legítimas". A separação entre "legítimas" e "bastardas" era total, e dizem que as tais legítimas eram ENCORAJADAS a humilhar as bastardas. Li uma história de uma mulher que enrolou uma pedra num papel de bala e deu para uma dessas pobres crianças, só para morrer de rir da carinha triste dela. A mulher se arrependeu amargamente de ter feito isso, e o resultado é que ela é hoje a historiadora que investigou o ocorrido.

Tem um filme rodando por aí, chamado Philomena, que mostra a busca de uma mulher por seu filho, que nasceu em uma dessas lavanderias, que eu ainda não tive a chance de assistir. Mas, eu li uma entrevista que a Philomena deu recentemente, expressando choque e horror com relação ao caso que ficou conhecido como "os bebês de Tuam". Ela disse: "Como pode eles terem feito isso? Como que mulheres que professaram seu amor por Deus, que eram Cristãs, podem ter pensado que agir assim era o certo? (...) É de uma crueldade impensável. Meu coração dói por essas crianças e suas pobres mães. Eu poderia chorar hoje. Elas foram alimentadas com água e açúcar e eu imagino que ficaram tão desnutridas que acabaram morrendo e sendo jogadas fora". A entrevista completa, em inglês, pode ser lida aqui.


Eu traduzi a fala acima para abrir um pequeno parêntese: a comoção em torno do caso acabou colocando as freiras na posição de bode expiatório. O que é até previsível, considerando o grau de misoginia da sociedade. Os líderes da igreja, que são todos homens, estão sendo poupados de críticas e isso é bem sintomático de um sistema que demoniza as mulheres. Como essas lavanderias eram administradas por freiras, o primeiro instinto é justamente pensar como a Philomena pensa, e isso agrava ainda mais a situação de ódio contra as mulheres no país. Estão xingando as freiras enquanto a estrutura patriarcal da igreja continua intacta. 

O assunto mexe muito com os brios dos irlandeses. Praticamente todo mundo que tem a cabeça no lugar se envergonha desse passado não muito distante (as tais lavanderias, olha só, funcionaram até a década de noventa). E a igreja católica, como se posiciona? Tergiversando, óbvio. O bispo local veio com a velha e manjada ladainha que temos que analisar o "passado" com os olhos no "passado". Sabe, aquela historinha do contexto? Um contexto que só serve pra justificar as merdas que a igreja faz, e não necessariamente aquilo que o povo faz? Então. É isso, gente: os padres dizem que temos que analisar as coisas sob uma perspectiva histórica, sendo que os fatos são tão recentes que muitas vítimas ainda estão vivinhas da silva. Sendo humilhadas por um silêncio que já dura décadas.

Daí que pelo tom desse texto já deu pra ver que eu estou emputecida, né? Pois bem. Reuni minhas amigas feministas e resolvemos planejar um protesto. Tive a idéia de cortar 796 bonequinhas de papel e distribuir na praça principal da cidade, que fica em frente de casa. Uma amiga tinha o contato da organização pró-escolha de Galway, e as meninas da organização ficaram felizes em nos encontrar. Nos reunimos para um chá e decidimos como seria o evento. Resolvemos que não seria um protesto propriamente dito, mas uma vigília, uma solenidade para relembrar as vítimas e exigir atenção do Estado ao caso. 

O evento aconteceu na quarta-feira, dia 11 de junho de 2014, e eu posso dizer com certeza que foi um dos momentos mais marcantes da minha vida. Galway é uma cidade pequena, e nós não tivemos tempo e nem muito espaço na mídia para divulgar o evento. Ainda assim, umas 200 pessoas compareceram ao local. A Rachel, ativista pró-escolha e apresentadora do evento, foi muito aplaudida quando pediu pela total separação de Estado e Igreja. As pessoas levaram flores e colocaram próximo às bonecas de papel. 

Euzinha lendo o poema. Maria ao meu lado (de perfil)
Quando eu e Maria estávamos cortando as bonecas, nós tivemos a compreensão da dimensão do horror: era boneca que não acabava mais! As nossas mãos doíam, acabou que nem conseguimos numerar todas em casa, tivemos que abrir as correntes de boneca na praça, e ali mesmo conseguimos mais voluntárias para numerar as bonequinhas. Cada número era uma lembrança da triste realidade de que seres humanos foram tratados daquela forma impessoal - apenas um número, apenas mais um corpo a ser jogado numa fossa. A tristeza foi tanta que eu escrevi um poema, e acabei tendo a chance de ler o mesmo durante o evento, e o pessoal gostou bastante. Deixo o link para o poema, em inglês. 

A descoberta das ossadas revela mais que um capítulo sombrio da história da Irlanda: ela demonstra como a influência da religião pode ser perniciosa para as mulheres. Ela demonstra que a mulher na Irlanda não vale nada. Essas mulheres que foram enviadas às tais instituições tiveram a escolha roubadas de si. Por que será que é tão mais fácil se relacionar com bebês de forma abstrata (afinal, todo o conceito de 'pró-vida' é isso: uma abstração) do que cuidar da materialidade de seres humanos que já existem? Por que será que a igreja achou (e pelo visto, ainda acha) normal considerar o aborto algo errado ao mesmo tempo em que incita tamanha violência contra crianças indefesas que só precisavam de um pouco de amor? Qual o problema desse mundo?

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