'Eles subiram e foram matando dezenas', lembra sobrevivente


Missionário Francis Lins tinha 25 anos e estava

 preso havia 5 quando ocorreu a tragédia

06 de abril de 2013 | 17h 59
Bruno Paes Manso, Danielle Villela, Diego Cardoso e Luciano Bottini
O missionário Francis Lins, de 45 anos, estava no Pavilhão 9 do Carandiru no dia 2 de outubro de 1992. Tinha 25 anos e estava, havia 5, preso por assalto a mão armada, homicídio qualificado e furto qualificado. Antes de ser preso, levou diversos tiros que lhe deixaram marcas no corpo. Depois de sobreviver ao massacre, passou a atuar em evangelização e a viajar pelas igrejas do interior para contar sua história. Chamava o Carandiru de “a casa do diabo velho”, um lugar muito difícil de sobreviver.
Como começou o massacre?Foi uma briga entre dois presos. O Braba e o Coelho. Um esfaqueou o outro. Aconteceu do nada, não foi premeditado.
E depois?Um deles foi para a enfermaria e o outro se apresentou na carceragem, numa cela de disciplina. Só que os amigos do ferido compraram a briga e tentaram invadir a carceragem. Os funcionários abandonaram o pavilhão achando que era uma rebelião. Aí começou o quebra-quebra. Os presos passaram a andar com facas e madeira, para se defender na briga.
Onde o senhor estava?No quinto pavimento, na cela dos crentes. Depois de dois anos na prisão, eu virei evangélico.
Quando chegou a Tropa de Choque, o que ocorreu?Eles deram rajada de metralhadora no portão, subiram e foram matando dezenas de vidas. Eles vieram cantando: “O Choque chegou. Vocês pediram e o Fleury mandou”. Os presos foram tirando a roupa, nus, para mostrar que não iriam enfrentar a polícia. Porque preso não enfrenta a Tropa de Choque. Como ele vai enfrentar se tem faca e a polícia metralhadora? Por meia hora eles mataram gente.
A PM agiu em legítima defesa?Não. Os presos jogaram as facas no pátio, ficaram nus e entraram para as celas, em sinal de rendimento.
Quando o senhor encontrou a PM?Eu estava na cela e eles me mandaram sair arrastando de barriga. Me deram chutes, eu vi corpos empilhados. Fiquei quatro horas no pátio interno, pelado e com a mão na cabeça.
O senhor teve de ajudar a carregar corpos?Não. Eu vi muitos presos sendo obrigados a carregar, mas não foi o meu caso. Quando a gente estava no pátio, eles mandavam presos subirem as escadas. A gente ouvia rajada de metralhadoras e os presos não desciam mais. Dois amigos meus do Carandiru estão enterrados aqui (no Cemitério de Guaianases, na zona leste, onde a entrevista foi concedida).
by Estadão

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