Impeachment se deve a 'meia dúzia de hipócritas', diz ex-ministro Magri


29/09/2012

Antônio Rogério Magri diz que parlamentares 'se aproveitaram' da crise.

Para ele, erro de Collor foi não ter dado 'muita bola' ao Congresso.

Maria Angélica OliveiraDo G1, em São Paulo

O ex-ministro Antônio Rogério Magri credita o impeachment sofrido pelo presidente FernandoCollor de Mello à falta de uma base parlamentar consistente e a “meia dúzia de hipócritas” no Congresso. Em 29 de setembro de 1992, no auge das denúncias de corrupção, Collor teve 441 votos na Câmara dos Deputados a favor de seu afastamento da Presidência da República e 38 contra.
O ex-ministro Antonio Rogério Magri na sede da central Força Sindical, em São Paulo (Foto: Caio Kenji / G1)O ex-ministro Antonio Rogério Magri na sede da central Força Sindical, em São Paulo (Foto: Caio Kenji / G1)
(Para relembrar os fatos que levaram à queda do então presidente, o G1 publica nesta sexta, 28, e no sábado, 29, um conjunto de reportagens com depoimentos de personagens relacionados ao episódio, como ministros, políticos e auxiliares de Collor, e apresenta toda a trajetória do impeachment por meio de fotos, vídeos, infográficos e história em quadrinhos.)
"Alguns parlamentares, de quem nem me lembro o nome hoje, se aproveitaram daquele momento. Alguns, com nome dentro do Congresso, se aproveitaram para pegar o poder, se aproveitaram da fragilidade: ‘Vamos pegar, vamos tomar conta. Tem eleição direta mesmo, vambora’”, analisa.
Duas décadas depois, o ex-ministro do Trabalho e da Previdência, célebre por bordões e frases – como o "imexível" e "cachorro também é ser humano" – lamenta o impeachment e diz que, se fosse de Alagoas, votaria em Collor, hoje senador pelo estado.
“Ele tinha personalidade. É pena que ele só tinha 40 anos. A abertura deste país passou pela mão dele”, afirmou.
Magri é, ele mesmo, exemplo da tese que defende sobre o impeachment. “Se o Collor tivesse montado uma base parlamentar, por exemplo, como o presidente Lula montou, ele não teria caído. Teria distribuído melhor os ministérios, distribuído melhor a força política dele. Não mandava sozinho, teria mais gente pra mandar junto. Provavelmente, não cairia”, afirmou.
'Promessa de palanque'
Funcionário de carreira da Light em São Paulo e sindicalista experiente, ele conta que virou ministro devido a uma “promessa de palanque”, e não por indicação partidária, prática corriqueira hoje e que serve para acomodar interesses de partidos aliados.
O ex-ministro Antonio Rogério Magri, atualmente assessor da Força Sindical (Foto: Caio Kenji / G1)O ex-ministro Antonio Rogério Magri, atualmente assessor da Força Sindical (Foto: Caio Kenji / G1)
A divisão de ministérios entre os partidos muitas vezes serve como moeda de troca pelo apoio dado na campanha eleitoral e por apoio no Congresso durante o governo.
Arte impeachment collor 20 anos vale esta (Foto: Arte/G1)
“Eu estava sem partido nenhum. Coloquei a CGT (Central Geral dos Trabalhadores, que presidia à época) à disposição do Collor e fui para a rua com ele [na campanha]. Um dia, ele subiu no caminhão em frente à fábrica da Monark e disse: ‘Se eu for eleito, meu ministro do Trabalho será um trabalhador, um operário’. Ele simplesmente cumpriu o que prometeu. (...) O presidente me deu dois ministérios e eu não tinha nenhum vínculo partidário”, conta.
Mas foi à distância, em São Paulo, que Magri assistiu à derrocada de Collor. Ele foi exonerado em janeiro de 1992, poucos meses antes de surgirem as acusações de Pedro Collor, irmão do presidente, sobre a influência no governo de Paulo César Farias, o ex-tesoureiro de campanha do presidente.
Magri deixou os ministérios devido a uma gravação em que afirmaria ter recebido US$ 30 mil para intermediar um negócio envolvendo o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). O caso rendeu um processo por corrupção passiva que tramita até hoje.
Condenado pela Justiça a dois anos de prisão, ele aguarda o julgamento de um recurso no Superior Tribunal de Justiça (STJ) e sustenta que a voz na gravação não é dele.
“Voltei dois meses depois [de deixar Brasília] para a Eletropaulo (que sucedeu a Light), e acompanhei pela televisão, pelos jornais, pela rádio. O que fizeram com o Collor foi algo bastante inédito. É só mensurar o mensalão, perto da Elba do Collor, para você ter uma noção clara e transparente do que fizeram com o Collor. As pessoas acabaram votando pelo impeachment muito mais porque o Collor nunca deu muita bola para o Congresso Nacional. Talvez tenha sido um grande erro dele”, diz.
'De irmão para irmão'
O ex-ministro, atualmente assessor político da Força Sindical e filiado ao PDT, também diz que se surpreendeu com as denúncias de Pedro Collor, de quem era amigo, e acredita que as acusações do irmão do presidente foram o episódio mais marcante da crise.
“Tinha uma intimidade grande com o Pedro, ia para Alagoas e ficava na casa dele. Acho que o Pedro deveria ter conversado um pouco mais com o presidente para evitar esse tipo de coisa, falado de irmão para irmão, o que está se passando, por que está acontecendo. Acho que ele foi às vias de fato sem necessidade”, diz. Sobre PC Farias, afirma que nunca chegou a ver o empresário no ministério.
Com o presidente, diz Magri, a relação era “a mais perfeita possível”. “Tive uma relação não só de presidente da República para ministro, mas de amigo para amigo. Éramos faixa-preta, ele de caratê e eu de jiu-jitsu. Tínhamos uma intimidade pelo esporte que torna a amizade bastante sólida", lembra.
"E ela permaneceu até o dia em que ele me chamou e disse: ‘Eu preciso do seu cargo porque estou fazendo uma adaptação com outros partidos e você é meu amigo e eu só pediria para um amigo’. Foi na maior tranquilidade do mundo”, completa
.

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