Um dos mais conhecidos estudiosos do envelhecimento, o cientista inglês diz que o ser humano poderá viver mil anos


Aubrey de Grey


O profeta da imortalidade

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Nas contas do pesquisador inglês Aubrey de Grey, 46 anos, muitas das crianças 
que estão nascendo neste momento ao redor do mundo serão as primeiras protagonistas 
de uma revolução na história humana: elas poderão viver pelo menos mil anos. 
Segundo Grey, isso será possível com o desenvolvimento e aplicação, já nos próximos
 25 anos, de tratamentos capazes de evitar ou corrigir os principais mecanismos 
celulares que levam a doenças associadas ao envelhecimento - mal de Parkinson e de 
Alzheimer entre elas. "Faremos a manutenção do corpo de uma forma tão 
eficaz que impediremos o surgimento dessas enfermidades", diz.
Chamado de o profeta da imortalidade, Grey é um dos mais conhecidos
 estudiosos do envelhecimento. Também é dos mais controversos - defende, por
 exemplo, que envelhecer é um processo evitável, a exemplo de várias doenças.
 Antes da paixão pelo tema, despertada pelo casamento com a bióloga Adelaide 
Carpenter, há 20 anos, o pesquisador era um gênio das ciências da computação.
Dono de um visual excêntrico - mantido até hoje com sua longa barba e bigode à 
la Rasputin -, ele conduziu durante 14 anos suas experiências na prestigiada 
Universidade de Cambridge, na Inglaterra. Hoje, está à frente de sua própria 
fundação - a Methuselah, ou Matusalém em português, numa alusão ao longevo
 personagem bíblico. A entidade é dedicada a premiar projetos 
antienvelhecimento e à pesquisa de novas estratégias contra esse processo. 
De Cambridge, onde mora, Grey concedeu a seguinte entrevista à ISTOÉ.
ISTOÉ -
Por que o sr. afirma que o envelhecimento é uma condição evitável?
AUBREY DE GREY -
O processo de envelhecer, assim como as doenças, é um alvo
legítimo que pode ser atacado pelas intervenções médicas.
Ele é uma mudança na estrutura do corpo humano - a mesma coisa que
 acontece em uma enfermidade. Se o objetivo da medicina é recolocar o 
corpo no estado anterior à mudança - e ela faz isso -, a mesma estratégia 
pode ser adotada em relação ao envelhecimento.
ISTOÉ -
De que maneira ele pode ser evitado?
AUBREY DE GREY -
Por meio de um trabalho contínuo de reparo e manutenção: 
removendo precocemente os primeiros sinais de envelhecimento do corpo antes 
que eles se acumulem tanto a ponto de causar prejuízos ao organismo. É a mesma 
coisa que se faz para manter um carro clássico ou uma casa em boas 
condições. Sabemos que não há limite para isso. Eles podem durar quanto 
quisermos. Seremos capazes de fazer a manutenção do corpo de uma forma 
tão eficaz que nos permitirá evitar indefinidamente as doenças que costumam
 aparecer com o passar do tempo.
ISTOÉ -
Quais as principais causas do envelhecimento a serem monitoradas e combatidas?
AUBREY DE GREY -
Defini sete razões. A primeira delas é que, com o transcorrer 
dos anos, as células vão perdendo sua capacidade de se renovar. Por causa disso, 
há uma diminuição de sua quantidade, com repercussões importantes como a 
perda de massa óssea. Em seguida, há a questão da intoxicação interna. 
Devido ao envelhecimento, as células não conseguem se dividir corretamente e,
 quando morrem, liberam substâncias tóxicas. Mutações ocorridas no núcleo das 
células são outra causa, fazendo com que essas estruturas proliferem
 irregularmente. Além disso, existe o problema de mudanças genéticas nas 
mitocôndrias (estrutura da célula responsável pelo fornecimento de energia). 
Pontuo ainda a existência do que chamo de lixo nas células, caracterizado pelo 
acúmulo de substâncias resultantes de reações químicas, e o lixo externo, 
quando as células jogam fora proteínas que deveriam ficar lá dentro. 
Por fim, há a ocorrência das proteínas irregulares. São moléculas que tomam uma 
forma errada e acabam se grudando umas nas outras, atrapalhando o 
funcionamento, por exemplo, dos vasos sanguíneos.
ISTOÉ -
Como o sr. chegou à conclusão da existência dessas sete causas?
AUBREY DE GREY -
Percebi que o melhor jeito de entender o envelhecimento não era 
estudar as pessoas mais velhas, mas analisar as diferenças no corpo acumuladas
 durante a vida. Se um indivíduo de 45 anos tem exatamente as mesmas 
moléculas e células de um com 25 anos, eles deveriam ter a mesma expectativa 
de vida. Perguntei a mim mesmo que tipo de mudanças celulares e moleculares 
ocorrem com o passar do tempo. E as respostas já eram conhecidas. Apenas a
maioria dos gerontologistas não tinha visto o problema por esse aspecto.
ISTOÉ -
Qual o papel de cada uma dessas causas?
AUBREY DE GREY -
A maioria tem consequências específicas. Mas elas se combinam e contribuem, de maneira complexa, para o surgimento de doenças.
ISTOÉ -
De que forma a ciência poderia controlar esses mecanismos?
AUBREY DE GREY -
Todos os tratamentos efetivos para esses problemas terão como 
objetivo revertê-los ou acabar com as suas consequências. Quando as células 
perderem suas funções, nós as substituiremos usando células-tronco. Quando
 houver muitas células proliferando de modo irregular, vamos remover as 
excedentes usando terapia genética ou vacinas. Se o problema for o acúmulo de
 toxinas dentro das células, podemos tirá-las utilizando enzimas ou vacinas. Em 
relação às mutações, podemos prevenir seus efeitos por meio da inserção de
 genes modificados novos, sadios, ou induzindo à morte as células com as 
mutações. Esta última estratégia envolve terapia genética e uso de células-
 tronco. Quando tivermos todos esses recursos, não ficaremos mais frágeis,
 decrépitos e dependentes com o passar dos anos.
ISTOÉ -
Com tudo isso, poderemos viver pelo menos mil anos?
AUBREY DE GREY -
Sim, sem dúvida. Esta é a minha convicção.
ISTOÉ -
O sr. acredita que a primeira pessoa que viverá tudo isso já nasceu?
AUBREY DE GREY -
Existe 80% de chance de isso ser verdade. Creio que há
 50% de possibilidade de as terapias necessárias para atingir tal longevidade
 estarem disponíveis dentro de 25 anos.
ISTOÉ -
Quais seriam as principais?
AUBREY DE GREY -
Células-tronco e terapia genética.
ISTOÉ -
Pelo seu raciocínio, o ser humano poderia se tornar imortal?
AUBREY DE GREY -
Não. Continuaremos morrendo por causa de acidentes, violência ou
 uma nova variante do Influenza (vírus causador da gripe), por exemplo.
ISTOÉ -
Será mesmo tão bom para a humanidade viver tanto?
AUBREY DE GREY -
Com certeza. É certo que haverá novos desafios, como a 
Revolução Industrial criou novas situações. O que temos de ter em mente é que 
é muito ruim para a humanidade saber que todos ficarão frágeis e doentes com 
o passar do tempo.
ISTOÉ -
Não pode ser entediante viver tanto?
AUBREY DE GREY -
Não. Quando você fica com tédio hoje, procura fazer alguma coisa 
contra isso - vai aprender algo novo, por exemplo. Penso que as pessoas terão 
muitas e diversas carreiras, alternando períodos ociosos e de trabalho, 
treinamento. Haverá uma dinâmica maior. Isto já está acontecendo hoje.
ISTOÉ -
Como obter recursos para sustentar uma superpopulação?
AUBREY DE GREY -
Será um desafio. Decidiremos ter menos filhos ou limitaremos o 
uso das terapias antienvelhecimento. Mas será uma escolha que a humanidade do 
futuro terá de fazer por si mesma. Nós, agora, temos o dever de criar as terapias
 para que o ser humano possa fazer essa escolha.
ISTOÉ -
E para as religiões, para as quais a morte e todos os aspectos que a 
envolvem são tão centrais?
AUBREY DE GREY -
Não haveria efeito neste tema porque as pessoas continuarão a
 morrer, apenas não nas idades previsíveis atualmente.
ISTOÉ -
Ter menos medo da morte pode provocar alguma mudança no
 comportamento humano?
AUBREY DE GREY -
O medo da morte por causa de acidentes se tornará maior. Então, 
iremos tornar as atividades de risco menos perigosas, fabricando carros mais 
seguros, por exemplo.
ISTOÉ -
Como seria a qualidade de vida das pessoas depois de tanto tempo?
AUBREY DE GREY -
A mesma experimentada por adultos hoje. Mas sem o stress de ter
 de tomar conta de pais doentes.
ISTOÉ -
O sr. está casado há 20 anos. Consegue imaginar como seria viver com sua esposa por mais 980 anos?
AUBREY DE GREY -
Não. Acredito que nossa vida tem de correr livremente, o que é
 bom. Não penso sobre o futuro distante. Eu apenas espero ser capaz de 
pensar, raciocinar, quando ele chegar.
ISTOÉ -
E em relação ao trabalho? Japoneses, por exemplo, costumam trabalhar a
 vida toda em uma mesma empresa. Como seria isso, considerando uma vida de
 mil anos? Não vai enjoar?
AUBREY DE GREY -
Não creio que seria um problema. Tenho certeza de que a 
longevidade vai encorajar as pessoas a mudar de carreira depois de algumas
 décadas.
ISTOÉ -
Os recursos que o sr. cita contra o envelhecimento são hoje muito caros. As tecnologias poderão ser usufruídas por todos?
AUBREY DE GREY -
Todos terão acesso a esses tratamentos, mesmo se não tiverem 
dinheiro. A razão é que eles serão um bom investimento para os países e para o 
mundo todo. Pessoas doentes são incrivelmente caras para os governos. Será economicamente preferível primeiro impedir que os cidadãos fiquem com sua
 saúde fragilizada Dessa maneira, eles também poderão continuar trabalhando 
para manter a riqueza da sociedade.
ISTOÉ -
Há quatro anos o Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos Estados
 Unidos, lançou um desafio à comunidade científica, oferecendo um prêmio em
 dinheiro a quem provasse que suas ideias estavam erradas. Ninguém apareceu
 para contestá-lo. O que achou disso?
AUBREY DE GREY -
O propósito do desafio foi mostrar ao público e aos outros cientistas
 que as pessoas que atacavam meu trabalho não tinham boa base científica para 
fazer isso com segurança. E foi o que ficou provado.
ISTOÉ -
De onde vem o dinheiro para seu trabalho?
AUBREY DE GREY -
Ele vem da filantropia feita por indivíduos interessados nos avanços
 nesta área. Trabalhava na Universidade de Cambridge, mas saí depois que
 minha fundação conseguiu verba suficiente para me pagar. Não temos dinheiro 
público. Mas vejo os governos investindo em pontos importantes, como as pesquisas
 com as célulastronco, essenciais para se viver mais.
ISTOÉ -
O que o sr. acha de ser chamado de "o profeta da imortalidade"?
AUBREY DE GREY -
Não deixo isso me chatear.

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