Elas são as meninas superpoderosas do Palácio da Polícia Presença de mulheres à frente das DPs está cada vez mais frequente



Nadine Anflor (de terno) e Flávia Fachinni, no Palácio da Polícia, em Porto AlegreFoto: Adriana Franciosi / Agencia RBS
Francisco Amorim

À frente de uma das mais movimentadas DPs de Porto Alegre, Nadine Anflor, 36 anos, e Flávia Faccini, 34, têm a missão de proteger outras mulheres.

Com apoio de mais uma colega, as delegadas recebem diariamente 40 novas denúncias de maus-tratos. A maioria dos casos atendidos é de violência doméstica. Uma rotina de depoimentos, interrogatórios e prisões de agressores.

— Atuamos não apenas como policiais. Elas chegam aqui fragilizadas, pois são vítimas de crimes sexuais ou de agressões praticadas por pessoas em quem confiavam. Elas precisam ser ouvidas. Querem conselhos. É um trabalho muito importante, mas pesado — explica a Nadine.

Além do trabalho na Capital, Nadine também supervisiona o atendimento em outras DPs especializadas no atendimento à mulher, ministra palestras em ONGs por todo o Estado e participa de grupos que discutem as políticas públicas de combate à violência doméstica. Apesar da agenda cheia, a delegada reserva parte de sua semana para cuidados pessoais.

— Não abro mão da unha pintada, geralmente de vermelho. Uma vez por semana preciso ir ao salão da amiga Zu para cuidar dos pés e das mãos. E a massagem com a Mayume é fundamental. Renova minhas energias — conta a policial, que é natural de Getúlio Vargas.

Mas ser bonita atrapalha o trabalho policial? Para Nadine, a resposta é não.

— Ajuda com certeza, embora o fundamental seja o tratamento respeitoso às partes, seja a vítima ou o preso.

Flávia é uma das primeiras policiais a chegar à DP pela manhã. Ela não sai de casa sem rímel, protetor solar ou uma base e um batom. Um mix de flores, de Tommy Girl, marca sua entrada na delegacia em dias de calor. No inverno, a preferência é pelo OUI da Lancôme.

— Não saio nem para uma operação sem maquiagem, saio sem café para poder dormir mais, mas sem maquiagem, não — revela.

A porto-alegrense formada pela Pontifícia Universidade Católica (PUCRS) também é uma das últimas a deixar o posto. Sem tempo para o salão, Flávia adotou a estratégia do "faça você mesma":

— Eu faço as minhas unhas da mão, por exemplo. Salão, eu vou uma vez por mês, por obrigação.



Flávia Fachinni praticando exercícios
Foto: Adriana Franciosi/Agência RBS

A grunge que virou delegada

A camisa xadrez e a calça jeans surrada foram substituídas pelo tailleur da Zara, mas a trilha sonora preferida de Flávia continua a incluir bandas de rock. As músicas que acompanhavam a estudante nos anos 90 agora estão gravadas no seu iPad.

Os solos de guitarra de Kirk Hammet, do Metallica, agora embalam mais do que conversas com amigos na zona sul da Capital, onde a delegada cresceu, mas viagens a trabalho pelo Interior e campanas policiais em busca de criminosos. Fã de Ramones, Flávia lamenta não ter conseguido ir no show da banda em Porto Alegre, em 1994.

Se o estilo musical de Flávia parece incomum para uma delegada, sua rotina de atividades físicas se assemelha a de outras policiais. Apesar de não ser um entusiasta de esporte, ela é frequentadora assídua de academias. E, atualmente, são as fitas do TRX que mantêm sua forma.

— Quando a gente para de ir na academia perde um pouco do pique — afirma.

Em casa, a policial que tem queda por doces, tem se dedicado a um novo passatempo: fazer bolos.

— O muffin é meu preferido. Eu tenho feito uma receita que inventei, com requeijão e goiaba.

Quando acerta a receita — quase sempre, ela jura —, o que sai do forno é levado no dia seguinte para a DP. Para a sorte dos colegas.

Prioridade é cuidar do Cadu

Há dois anos e meio Nadine se tornou mãe do Carlos Eduardo, o Cadu.

Os jantares com amigos rarearam, e o contrato na academia não foi mais renovado. As duas medidas garantiram à delegada um tempo extra para curtir seu filho. E, o melhor, sem que precisasse abdicar do trabalho à frente da Delegacia de Atendimento à Mulher.

— Meus pais são professores de Educação Física e pegam no meu pé por eu estar parada, mas aproveito todo o tempo para ficar com o Cadu. Fazer o quê, né?! — conta Nadine.

Para dar conta dos compromissos, Nadine madruga todos os dias. Só assim consegue conversar, sem atropelos, com o marido, o analista judiciário Elmo José Anflor Júnior, 37 anos.

— Tomo chimarrão com ele bem cedo, lendo as notícias do dia. Não abro mão também de almoçar, no mínimo uma vez por semana, com ele.

Nadine diz ter encontrado em Elmo seu grande cúmplice. Além de apoiá-la desde o início de sua carreira policial, ele divide com ela os cuidados com Cadu:

— Saio para trabalhar, e o Cadu ainda está dormindo. Fica com o marido a obrigação de levá-lo para a escolinha.


"Parecia guria demais"

Ser uma jovem delegada no Interior exige uma boa dose de paciência e bom humor. Duas semanas após assumir a DP de Nova Prata, na Serra, em 2010, a recém-chegada Simone Chaves, 28 anos, teve de explicar a PMs por que havia entrado armada em um ônibus na rodoviária da cidade.

Fronteiriça de pele morena, a delegada parecia "guria demais" para ser a nova autoridade policial do município de 22,3 mil habitantes. Mesmo apresentando sua carteira funcional, os brigadianos custaram a acreditar que a passageira suspeita era uma policial civil.

— Estava sem carro naquela semana, então peguei um ônibus para voltar para Porto Alegre. Quando subi no veículo, alguém viu minha pistola na cintura, sob o casaco. Aí começou a confusão — conta.

Como o ônibus não partia, Simone começou a desconfiar de que algo estava errado. Passados alguns minutos, uma guarnição da Brigada Militar chegou ao local, e os PMs anunciaram uma revista nos passageiros.

— Neste momento, achei melhor me identificar. Foi engraçado, pois eles permaneciam desconfiados mesmo com minha carteira funcional na mão. Chegaram a ligar para a DP para confirmar se eu era mesmo a nova delegada — lembra sorrindo.

Depois de passar pela cidade serrana, onde investigava pequenos crimes, Simone encarou a rotina de plantonista em uma das cidades mais violentas do Estado. O trabalho em Alvorada moldou a policial, que hoje se debruça sobre crimes cometidos contra outras mulheres em Gravataí.

— O plantão acaba sendo uma espécie de treinamento intensivo, onde se ganha experiência rapidamente — comenta ela.

Fora da delegacia, além das visitas regulares ao estande de tiros, Simone dedica seis noites por semana a treinos pesados na academia, quase sempre acompanhada do noivo, Eibert Moreira, 28 anos, que conheceu no curso de formação da Polícia Civil. Nos finais de semana, o gosto pelo esporte faz do Gasômetro o destino oficial do casal de delegados:

— Como ele anda de skate, eu comprei um roller para acompanhar. Estou adorando, mas meu pai ficou surpreso.

— Ele me disse que já sou grandinha demais.

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